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OPINIÃO11 de abril de 2024

Educação em tempo integral: estratégia para enfrentar a crise de aprendizagem

Expansão do modelo contribuirá para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional das crianças

Shireen Mahdi
Folha de S. Paulo

Entre os diversos impactos causados pela pandemia de Covid-19, um dos que mais afetaram o Brasil e a região da América Latina e Caribe foi o que atingiu a educação. Os resultados do PIRLS 2021 (Estudo Internacional de Progresso em Leitura) indicam retrocessos nas habilidades fundamentais de leitura entre estudantes do 4º ano. A maioria dos países que participaram apresentou um aumento no número de crianças com proficiência em leitura abaixo do mínimo, comparado a 2016. Na América Latina e no Caribe, a situação é particularmente alarmante, já que as escolas ficaram fechadas por cerca de cinco meses em média, um dos períodos mais longos comparado a outras regiões do mundo. Dados do PISA 2022 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) mostram que essa interrupção prolongada teve um impacto desproporcional nos estudantes de 15 anos, que viram seu aprendizado em matemática retroceder o equivalente a sete meses.[1] O ensino à distância não conseguiu atenuar essa perda educacional.

Uma estratégia para enfrentar essa verdadeira crise de aprendizagem é a expansão da carga horária em sala de aula, seja por meio de jornadas ampliadas ou de escolas em tempo integral. Estudos mostram que, além de aumentar o período escolar, essas estratégias promovem uma revisão do currículo, oferecem desenvolvimento profissional para professores e gestores e introduzem outras transformações significativas nas rotinas das escolas.

Exemplos internacionais mostram esses benefícios. Programas desenvolvidos no México, Uruguai e Peru, por exemplo, resultaram em ganhos significativos de aprendizagem com melhora nas notas de matemática e leitura, redução da distorção idade-série, oferta de mais recursos físicos (salas de aula, livros, e materiais pedagógicos), suporte pedagógico e maior especialização dos professores, entre outros impactos.  No Brasil, experiências nos estados de São Paulo e Pernambuco também trouxeram resultados positivos no desempenho acadêmico dos alunos.

Para além dos significativos resultados sobre a aprendizagem, há evidências de que a escola em tempo integral contribui também para o desenvolvimento socioemocional dos alunos e para a redução da gravidez e criminalidade na adolescência. E os benefícios ultrapassam os muros das escolas, com um impacto positivo na inserção de mães e avós no mercado de trabalho.

No entanto, se já existe um consenso de que a escola em tempo integral é benéfica para o desempenho de alunos e professores, a pluralidade no desenho dos programas atuais não permite estabelecer um modelo único de sucesso. Há diferenças no número de horas acadêmicas adicionais, oferta de disciplinas eletivas e de atividades extra-curriculares ou de reforço, por exemplo. E isso não é um problema. Afinal, é preciso adaptar os programas ao contexto e às necessidades de cada lugar.   

É essa pluralidade que vai enriquecer os debates do Seminário Internacional sobre Educação em Tempo Integral, que acontece em Brasília nos dias 9, 10 e 11 de abril. Promovido pelo Banco Mundial em conjunto com o Ministério da Educação e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o seminário contará com participação de autoridades da Argentina, Colômbia, Equador, México, Peru, Uruguai e Vietnã, e estará aberto para participação de agentes públicos da área de educação de todo o país, por meio de transmissão online.

A expansão da educação em tempo integral contribuirá para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional das crianças e jovens mais vulneráveis que, comprovadamente, se beneficiam mais e tornam o investimento mais eficiente. Entretanto, é necessário garantir a qualidade da implementação dos programas, como a revisão do currículo escolar e o planejamento das políticas de formação e alocação de professores. Também é preciso considerar o alto retorno desse investimento que gera benefícios sociais para fora da sala de aula, atingindo as famílias e o mercado de trabalho.

Os efeitos multifacetados mostram que a educação em tempo integral cuidadosamente planejada e executada pode ser uma ferramenta poderosa não somente para a recuperação da aprendizagem, mas para uma verdadeira transformação social.

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Esta coluna foi escrita em colaboração com Leandro Costa, economista sênior do Banco Mundial, e Giovana Quintão, consultora.

[1] (Jakubowski et al., n.d.)

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